O acordo de paz firmado entre o Botafogo e a Eagle/Ares pela SAF é tratado internamente como definitivo. Segundo informações publicadas pelo “UOL” nesta segunda-feira, as partes já assinaram o documento que será protocolado na Justiça nas próximas horas.
O entendimento prevê a suspensão das disputas judiciais por 30 dias, prazo máximo permitido inicialmente pela legislação. A paralisação pode ser renovada por mais um mês. Apesar disso, conforme a reportagem, o compromisso firmado entre as partes é considerado permanente nos bastidores.
Além da trégua jurídica, ficou acordada a manutenção de Eduardo Iglesias como CEO da SAF alvinegra. Também houve alinhamento para que não haja novas indicações ao Conselho de Administração neste momento.
Outro ponto importante é a continuidade do processo de recuperação judicial da SAF, que seguirá normalmente mesmo com o novo entendimento entre os envolvidos.
Segundo o “UOL”, citando pessoas que participaram diretamente das negociações, a tendência é que a Eagle/Ares faça um pagamento para deixar definitivamente a operação da SAF do Botafogo e devolver os 90% das ações ao clube associativo.
Os valores discutidos partem da casa dos € 25 milhões — aproximadamente R$ 146 milhões na cotação atual. Com isso, a ideia é que Botafogo e Lyon encerrem as disputas financeiras em aberto e que o clube carioca fique liberado para buscar um novo investidor para o futebol.
O modelo estudado para esse pagamento envolve um financiamento DIP (debtor-in-possession), mecanismo utilizado em empresas em recuperação judicial para garantir capital de giro com respaldo jurídico.
Nos bastidores, a expectativa é de avanço das tratativas com a GDA Luma, considerada favorita para assumir a SAF alvinegra. O clube também recebeu propostas de John Textor, de um fundo do Texas e de um grupo multiclubes europeu.
Quem é a GDA Luma?
A GDA Luma é uma gestora especializada em empresas em crise financeira — os chamados ativos “distressed”. Fundada por volta de 2021, administra cerca de US$ 406 milhões e opera com uma equipe enxuta, de aproximadamente 14 profissionais.

O foco não é tradicional. E isso importa. A lógica do fundo é entrar onde há problema, isto é, comprar dívida barata, assumir controle e reestruturar.
Como a GDA Luma atua
O modelo da GDA Luma segue um roteiro bem definido no mercado financeiro.
Primeiro, identifica empresas endividadas, mas com potencial de geração de caixa. Depois, adquire dívidas com desconto relevante, geralmente com garantia. A partir daí, passa a ter influência — ou controle — sobre a operação. É o chamado perfil de “white knight” — aquele investidor que entra em cenários críticos para tentar salvar o ativo.
A partir desse ponto, vem a fase mais sensível: o turnaround — a volta por cima em tradução livre. Corte de custos, ajuste de governança, reestruturação financeira, digitalização de processos. Tudo com um objetivo claro: recuperar valor e, no futuro, vender melhor.
Não é um investimento emocional. É técnico e de alto risco.
Gabriel de Alba
A sigla GDA vem das iniciais Gabriel de Alba, fundador e sócio-gerente da empresa, executivo com mais de 25 anos de experiência em reestruturações e passagem por mercados como Estados Unidos, Europa e Canadá.
No setor, ganhou um apelido que diz muito: “pit bull dos negócios”. A reputação vem do estilo direto.

De Alba construiu carreira atuando em operações complexas, muitas delas em cenários de recuperação judicial ou quase falência. Tem no currículo casos relevantes, como a reestruturação do Cirque du Soleil e da Gateway Casinos.
Também acumula formação de peso: NYU Stern, Columbia e estudos avançados em Harvard. Hoje, preside conselhos e participa ativamente das decisões estratégicas dos ativos sob gestão.
Quais empresas a GDA já recuperou?
A GDA Luma tem experiência comprovada em recuperações de empresas distressed via compra de dívidas e turnarounds operacionais liderados por Gabriel de Alba.
Cirque du Soleil
Gabriel de Alba, presidente do conselho, liderou a reestruturação pós-falência durante a pandemia de COVID-19, recapitalizando a companhia canadense de circo e entretenimento que estava à beira do colapso, restaurando operações e estabilidade financeira.
Gateway Casinos & Entertainment
De Alba preside o conselho da operadora de cassinos canadense, recuperada de processo de insolvência via aquisição de dívidas distressed, com foco em otimização operacional e crescimento sustentável.
Frontera Energy
Recuperada quando conhecida como Pacific Rubiales, empresa de exploração de petróleo na Colômbia; De Alba como presidente do conselho implementou reestruturação de dívida e turnaround, estabilizando a companhia.
Pat McGrath Labs
Em 2026, a GDA Luma injetou até US$ 30 milhões via Chapter 11 (US$ 10 milhões DIP financing + US$ 20 milhões pós-emergência), assumindo controle acionário como credor sênior, permitindo recapitalização e continuidade criativa com Pat McGrath como CCO.
Relação com o Botafogo
Em 2026, o fundo — ao lado da Hutton Capital — já realizou um aporte/empréstimo de US$ 25 milhões na SAF. Existe ainda a possibilidade de mais US$ 25 milhões, via emissão de novas ações.
Esse segundo movimento, porém, ficou travado. John Textor, que conduzia a negociação, foi afastado do comando da SAF antes de conseguir aprovar o modelo com os demais sócios.
Mesmo assim, o interesse da GDA Luma permanece. E cresce.
Por que o fundo aparece como favorito
A própria SAF já admitiu à Justiça um estado “pré-falimentar”, com dificuldade para pagar salários e necessidade urgente de liquidez. É exatamente esse tipo de ambiente que a GDA Luma costuma atuar.
Tudo mais constante, a SAF se encaixa como o perfil ideal para o fundo.
Empresas com problema de caixa, estrutura desorganizada e potencial de recuperação.
Internamente, a leitura é de que a GDA Luma poderia entrar não apenas com dinheiro, mas com um plano de reestruturação completo — algo que o clube hoje não tem consolidado.
O que pode mudar no Botafogo
Caso avance, a entrada da GDA Luma tende a trazer um modelo mais rígido de gestão. Menos margem para erro. Mais controle financeiro, além de foco absoluto em geração de caixa.
Não significa, automaticamente, sucesso esportivo. Mas indica um caminho claro: organizar para depois crescer. Nesta quarta, inclusive, a SAF apresentou Carlos Martins como novo CFO, em claro movimento de reestruturação da casa.
O processo ainda está em andamento. Depende de decisões judiciais, assembleias e negociação entre sócios.





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