Ex-controlador da SAF do Botafogo, John Textor concedeu entrevista coletiva para um grupo restrito de jornalistas nesta quarta, 3, em um hotel no Rio de Janeiro. Durante a conversa, o empresário norte-americano voltou a afirmar que continua sendo o proprietário de 90% das ações da SAF alvinegra e fez duras críticas ao clube associativo em meio às negociações envolvendo a possível entrada da GDA Luma.
Em declarações ao “ge”, Textor sustentou que qualquer tentativa de venda da SAF sem sua autorização poderá gerar consequências jurídicas e afirmou ter sido traído por integrantes do clube social.
— O fato é: eu sou o dono de 90% das ações. Vai ser altamente disputado entre mim e Eagle Bidco. Mas a Eagle não tem o direito de vender ações que eu sou dono. Se eles fizerem isso, o comprador tem que estar consciente de que está comprando algo inválido. Mas deixa eu dizer quem não tem esse direito também. Um dia, vai haver a resolução de John Textor tem o direito das ações ou se a Eagle vai fazer o impossível e convencer o júri de que o documento diz o que o documento não diz. Mas um grupo (de acionistas) que não tem o direito de fazer isso (vender as ações) é o associativo — declarou.
Traição
O empresário também questionou o papel desempenhado pelo clube social na condução das negociações envolvendo o futuro da SAF. Segundo ele, o associativo possui apenas participação minoritária e não teria legitimidade para conduzir uma eventual operação de venda.
— Nós temos essa crença de que o associativo pode fazer o que quiser, porque nós crescemos com ele, eles administram o clube. Mas eles tomaram a decisão, pelas leis que regem esse país, de ter 10% das ações. Eles não têm o direito de fazer isso. Fizeram um acordo com a GDA, eles me traíram, traíram o Durcesio, disseram a nós que outra coisa estava acontecendo. Eu acredito em tudo que estão falando e, agora, dizem que eles vão negociar para comprar as ações. Bem, vamos ver. Eles não são os donos, eu sou. O clube social tem que se responsabilizar pelo que está acontecendo. O clube social quer ego, poder, quer o clube deles de volta — completou.
Textor nega ter apresentado proposta ao clube social
Outro tema abordado pelo norte-americano foi a suposta proposta apresentada por ele para retornar ao comando da SAF. Na última segunda, 1º, conselheiros reunidos na residência do presidente João Paulo Magalhães Lins rejeitaram, de forma unânime, a alternativa ligada ao empresário.
Textor, porém, afirmou que nunca formalizou uma oferta ao clube social para recomprar a SAF e argumentou que o associativo sequer teria competência para deliberar sobre esse tipo de negociação.
— Eu nunca fiz uma oferta para o clube social para fazer nada além de apresentar aos membros o que eu estou disposto a investir na SAF. Eu não fiz uma oferta que eles votaram, deixei claro antes daquelas reuniões com e-mails que vocês vão ver que eles não têm o direito de comercializar essa oportunidade para a GDA, para a MasterCom ou para qualquer outra pessoa. Não estou oferecendo comprar nada de volta. Os documentos ficaram mais claros nas últimas semanas e meus direitos ficaram mais claros. Nunca fiz uma oferta ao clube social porque não é direito deles decidir isso. Eles são, por lei, detentores de 10%, têm um assento no conselho de administração e não deveriam estar administrando a empresa agora. Eles não têm o direito de fazer isso — afirmou.
Enquanto a disputa jurídica segue em curso, o Botafogo avança nas tratativas para definir o futuro da SAF. A GDA Luma continua sendo tratada nos bastidores como a principal candidata a assumir o controle do futebol alvinegro, embora o cenário ainda dependa dos próximos desdobramentos judiciais envolvendo Eagle Bidco, Cork Gully LLP e o próprio John Textor.
Quem é a GDA Luma?
A GDA Luma é uma gestora especializada em empresas em crise financeira — os chamados ativos “distressed”. Fundada por volta de 2021, administra cerca de US$ 406 milhões e opera com uma equipe enxuta, de aproximadamente 14 profissionais.
Como a GDA Luma atua
O modelo da GDA Luma segue um roteiro bem definido no mercado financeiro.
Primeiro, identifica empresas endividadas, mas com potencial de geração de caixa. Depois, adquire dívidas com desconto relevante, geralmente com garantia. A partir daí, passa a ter influência — ou controle — sobre a operação. É o chamado perfil de “white knight” — aquele investidor que entra em cenários críticos para tentar salvar o ativo.
A partir desse ponto, vem a fase mais sensível: o turnaround — a volta por cima em tradução livre. Corte de custos, ajuste de governança, reestruturação financeira, digitalização de processos. Tudo com um objetivo claro: recuperar valor e, no futuro, vender melhor.

Gabriel de Alba
A sigla GDA vem das iniciais Gabriel de Alba, fundador e sócio-gerente da empresa, executivo com mais de 25 anos de experiência em reestruturações e passagem por mercados como Estados Unidos, Europa e Canadá.
No setor, ganhou um apelido que diz muito: “pit bull dos negócios”. A reputação vem do estilo direto.
De Alba construiu carreira atuando em operações complexas, muitas delas em cenários de recuperação judicial ou quase falência. Tem no currículo casos relevantes, como a reestruturação do Cirque du Soleil e da Gateway Casinos.
Também acumula formação de peso: NYU Stern, Columbia e estudos avançados em Harvard. Hoje, preside conselhos e participa ativamente das decisões estratégicas dos ativos sob gestão.
Quais empresas a GDA já recuperou?
A GDA Luma tem experiência comprovada em recuperações de empresas distressed via compra de dívidas e turnarounds operacionais liderados por Gabriel de Alba.
Cirque du Soleil
Gabriel de Alba, presidente do conselho, liderou a reestruturação pós-falência durante a pandemia de COVID-19, recapitalizando a companhia canadense de circo e entretenimento que estava à beira do colapso, restaurando operações e estabilidade financeira.
Gateway Casinos & Entertainment
De Alba preside o conselho da operadora de cassinos canadense, recuperada de processo de insolvência via aquisição de dívidas distressed, com foco em otimização operacional e crescimento sustentável.
Frontera Energy
Recuperada quando conhecida como Pacific Rubiales, empresa de exploração de petróleo na Colômbia; De Alba como presidente do conselho implementou reestruturação de dívida e turnaround, estabilizando a companhia.
Pat McGrath Labs
Em 2026, a GDA Luma injetou até US$ 30 milhões via Chapter 11 (US$ 10 milhões DIP financing + US$ 20 milhões pós-emergência), assumindo controle acionário como credor sênior, permitindo recapitalização e continuidade criativa com Pat McGrath como CCO.
Relação com o Botafogo
Em 2026, o fundo — ao lado da Hutton Capital — já realizou um aporte/empréstimo de US$ 25 milhões na SAF. Existe ainda a possibilidade de mais US$ 25 milhões, via emissão de novas ações.
Esse segundo movimento, porém, ficou travado. John Textor, que conduzia a negociação, foi afastado do comando da SAF antes de conseguir aprovar o modelo com os demais sócios.
Mesmo assim, o interesse da GDA Luma permanece. E cresce.
Por que o fundo aparece como favorito
A própria SAF já admitiu à Justiça um estado “pré-falimentar”, com dificuldade para pagar salários e necessidade urgente de liquidez. É exatamente esse tipo de ambiente que a GDA Luma costuma atuar.
Tudo mais constante, a SAF se encaixa como o perfil ideal para o fundo.
Empresas com problema de caixa, estrutura desorganizada e potencial de recuperação.
Internamente, a leitura é de que a GDA Luma poderia entrar não apenas com dinheiro, mas com um plano de reestruturação completo — algo que o clube hoje não tem consolidado.
O que pode mudar no Botafogo
Caso avance, a entrada da GDA Luma tende a trazer um modelo mais rígido de gestão. Menos margem para erro. Mais controle financeiro, além de foco absoluto em geração de caixa.
Não significa, automaticamente, sucesso esportivo. Mas indica um caminho claro: organizar para depois crescer. Nesta quarta, inclusive, a SAF apresentou Carlos Martins como novo CFO, em claro movimento de reestruturação da casa.





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