Além de manter o discurso de que segue sendo dono de 90% das ações da SAF do Botafogo, John Textor responsabilizou o clube associativo pela crise financeira enfrentada pelo Alvinegro e pelos cinco transfer bans atualmente em vigor na Fifa. O empresário norte-americano concedeu entrevista coletiva para apenas quatro jornalistas nesta quarta, 3, em um hotel no Rio de Janeiro.
Em declarações reproduzidas pelo site GE, Textor apresentou sua versão sobre negociações envolvendo os volantes Danilo e Álvaro Montoro, que, segundo ele, seriam transferidos para o Nottingham Forest em operações que acabaram bloqueadas pelo clube social. O empresário também voltou a atacar a GDA Luma, principal interessada na compra da SAF, classificando o fundo como um “credor tóxico”.
— Vamos falar sobre as histórias que eles contaram, os 34 milhões que iam entrar vinham dos interesses econômicos de dois atletas: Danilo e Montoro. Era para transferir eles para o Nottingham Forest no tempo das regras da Fifa e trazê-los de volta imediatamente para ficar até o fim do ano. O valor do Danilo na época era bem questionável, porque veio para a gente em recuperação. Então nós vemos ele como um jogador de 46 milhões, ele é incrível. O mercado tem muitas perguntas para ele, precisam o ver jogando. Ele tem um problema que leva a uma condição médica horrível, mas o que tem feito é recuperação, recuperação, recuperação. Então esse contrato que nós fizemos com o Nottingham Forest nos deu o direito de manter o jogador e se ele valorizasse, o comprar de volta. Então tem muito nessa transação que o mercado não soube — afirmou.
Credor tóxico
Segundo Textor, a proposta teria sido rejeitada sem que houvesse qualquer conversa prévia com ele. O empresário afirmou que o bloqueio da operação impediu a entrada de recursos que poderiam aliviar a situação financeira da SAF.
— A equipe rejeitou a proposta, mesmo sem me ligar, isso nunca aconteceu antes. Não pude acreditar, vocês verão no e-mail. Como pode rejeitar essa proposta sem antes ligar e discutir sobre? Então os 34 milhões foram bloqueados. E sai “John está vendendo seu jogador favorito”. Eles foram ao tribunal bloquear o credor tóxico conhecido como GDA Luma, e agora querem que vocês acreditem que a GDA é a salvadora, mas sem John. Essas ironias eu ia pedir para os jornalistas analisarem os documentos, entender a história e entender o que aconteceu.
Textor nega responsabilidade pelos transfer bans
Na sequência da entrevista, o ex-controlador da SAF afirmou que não aceita ser responsabilizado pelos problemas financeiros atuais do Botafogo. De acordo com ele, a situação envolvendo os transfer bans teria sido agravada pelas ações judiciais movidas pelo clube social contra operações estruturadas durante sua gestão.
— Eu assumo a responsabilidade por muitos dos meus erros. Mas não vou me responsabilizar por transfer bans que foram criados pelo clube social, usando a Justiça para bloquear dinheiro de entrar. Como o clube estaria com 70 milhões de dólares? Nós estaríamos contratando jogadores, pagando nossas dívidas e não estaríamos nessa guerra. Se naquela época os 70 milhões de dólares tivessem entrado, nós não estaríamos aqui falando sobre a vergonha que está com o nome do nosso clube — completou.
As declarações acontecem em meio ao processo de transição societária da SAF. Enquanto Textor segue questionando judicialmente sua saída do controle do futebol alvinegro, a GDA Luma avança nas negociações com a Cork Gully LLP, administradora judicial da Eagle Bidco, para assumir os 90% das ações da SAF do Botafogo.
Quem é a GDA Luma?
A GDA Luma é uma gestora especializada em empresas em crise financeira — os chamados ativos “distressed”. Fundada por volta de 2021, administra cerca de US$ 406 milhões e opera com uma equipe enxuta, de aproximadamente 14 profissionais.
Como a GDA Luma atua
O modelo da GDA Luma segue um roteiro bem definido no mercado financeiro.
Primeiro, identifica empresas endividadas, mas com potencial de geração de caixa. Depois, adquire dívidas com desconto relevante, geralmente com garantia. A partir daí, passa a ter influência — ou controle — sobre a operação. É o chamado perfil de “white knight” — aquele investidor que entra em cenários críticos para tentar salvar o ativo.
A partir desse ponto, vem a fase mais sensível: o turnaround — a volta por cima em tradução livre. Corte de custos, ajuste de governança, reestruturação financeira, digitalização de processos. Tudo com um objetivo claro: recuperar valor e, no futuro, vender melhor.

Gabriel de Alba
A sigla GDA vem das iniciais Gabriel de Alba, fundador e sócio-gerente da empresa, executivo com mais de 25 anos de experiência em reestruturações e passagem por mercados como Estados Unidos, Europa e Canadá.
No setor, ganhou um apelido que diz muito: “pit bull dos negócios”. A reputação vem do estilo direto.
De Alba construiu carreira atuando em operações complexas, muitas delas em cenários de recuperação judicial ou quase falência. Tem no currículo casos relevantes, como a reestruturação do Cirque du Soleil e da Gateway Casinos.
Também acumula formação de peso: NYU Stern, Columbia e estudos avançados em Harvard. Hoje, preside conselhos e participa ativamente das decisões estratégicas dos ativos sob gestão.
Quais empresas a GDA já recuperou?
A GDA Luma tem experiência comprovada em recuperações de empresas distressed via compra de dívidas e turnarounds operacionais liderados por Gabriel de Alba.
Cirque du Soleil
Gabriel de Alba, presidente do conselho, liderou a reestruturação pós-falência durante a pandemia de COVID-19, recapitalizando a companhia canadense de circo e entretenimento que estava à beira do colapso, restaurando operações e estabilidade financeira.
Gateway Casinos & Entertainment
De Alba preside o conselho da operadora de cassinos canadense, recuperada de processo de insolvência via aquisição de dívidas distressed, com foco em otimização operacional e crescimento sustentável.
Frontera Energy
Recuperada quando conhecida como Pacific Rubiales, empresa de exploração de petróleo na Colômbia; De Alba como presidente do conselho implementou reestruturação de dívida e turnaround, estabilizando a companhia.
Pat McGrath Labs
Em 2026, a GDA Luma injetou até US$ 30 milhões via Chapter 11 (US$ 10 milhões DIP financing + US$ 20 milhões pós-emergência), assumindo controle acionário como credor sênior, permitindo recapitalização e continuidade criativa com Pat McGrath como CCO.
Relação com o Botafogo
Em 2026, o fundo — ao lado da Hutton Capital — já realizou um aporte/empréstimo de US$ 25 milhões na SAF. Existe ainda a possibilidade de mais US$ 25 milhões, via emissão de novas ações.
Esse segundo movimento, porém, ficou travado. John Textor, que conduzia a negociação, foi afastado do comando da SAF antes de conseguir aprovar o modelo com os demais sócios.
Mesmo assim, o interesse da GDA Luma permanece. E cresce.
Por que o fundo aparece como favorito
A própria SAF já admitiu à Justiça um estado “pré-falimentar”, com dificuldade para pagar salários e necessidade urgente de liquidez. É exatamente esse tipo de ambiente que a GDA Luma costuma atuar.
Tudo mais constante, a SAF se encaixa como o perfil ideal para o fundo.
Empresas com problema de caixa, estrutura desorganizada e potencial de recuperação.
Internamente, a leitura é de que a GDA Luma poderia entrar não apenas com dinheiro, mas com um plano de reestruturação completo — algo que o clube hoje não tem consolidado.
O que pode mudar no Botafogo
Caso avance, a entrada da GDA Luma tende a trazer um modelo mais rígido de gestão. Menos margem para erro. Mais controle financeiro, além de foco absoluto em geração de caixa.
Não significa, automaticamente, sucesso esportivo. Mas indica um caminho claro: organizar para depois crescer. Nesta quarta, inclusive, a SAF apresentou Carlos Martins como novo CFO, em claro movimento de reestruturação da casa.





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