Em mais um trecho da entrevista concedida nesta quarta, 3, para um grupo restrito de jornalistas no Rio de Janeiro, John Textor falou sobre o projeto esportivo que desenvolveu no Botafogo, comentou as saídas de jogadores importantes após as conquistas de 2024 e admitiu um erro estratégico durante sua trajetória à frente da SAF alvinegra.
O empresário norte-americano citou nomes como Luiz Henrique, Thiago Almada, Danilo e Igor Jesus, defendendo o modelo utilizado para atrair atletas ao Glorioso. Segundo ele, a possibilidade de retorno ao futebol europeu era parte fundamental das negociações conduzidas pelo clube.
— Uma das coisas que você vão ver é um contrato com o Luiz Henrique, que diz “Botafogo, Lyon e Luiz Henrique”. Bem, isso nunca foi feito, eu acho, no futebol. Então você faz o caminho do jogador, porque ele já está na Europa, ele fez a decisão de ir. É muito difícil para um jogador brasileiro voltar para o Brasil. Eles amam o país, mas todo mundo diz que ele falhou se voltar. “Ele falhou na Europa”. Então, muitas vezes, o melhor que você pode fazer com um jogador como Luiz, como Thiago (Almada), como Danilo, é dar-lhes uma oportunidade de reabilitar sua carreira ou de impulsionar sua carreira, como no caso do Thiago Almada. Então nós temos a capacidade de contratar esse caminho e dizer “Luiz, venha nos ajudar a ganhar um campeonato, e então você pode decidir quando voltar para a Europa”. E isso é uma vantagem incrível para o recrutamento. Então, o Flamengo pode te dizer, eles estavam naquela cidade, Espanha, na mesma hora que eu estava. Eles foram para a cozinha, eles conversaram com o Luiz Henrique. Bem, quem comeu o bolo de cenoura e acabou com o atleta? Eu fiz isso, certo? É por isso que você precisa de um proprietário. Alguém que vai aparecer. Certo? Igor Jesus, do mesmo jeito — declarou.
Desmontagem do elenco campeão
O ex-controlador da SAF também rebateu críticas sobre a saída de diversos atletas que participaram das campanhas dos títulos do Campeonato Brasileiro e da Libertadores de 2024.
De acordo com Textor, muitos contratos já foram estruturados prevendo permanências mais curtas, em razão da necessidade de acelerar o crescimento esportivo do clube em poucos anos.
— Então isso nos machuca dizer, olhe para todos os jogadores que construíram aquele campeonato, e veja como o John separou esse time. Todos esses ótimos jogadores, nessa linda foto de troféu, bem, todos foram embora. Bem, me desculpe. Esse foi o acordo que fizemos com muitos desses jogadores. Agora, é porque nós tínhamos muito a fazer em apenas três anos. Nós tivemos que subir da segunda divisão, nós tivemos que ficar na primeira divisão. E nós ganhamos o Brasil, nós ganhamos a América do Sul, nós ganhamos do melhor time do mundo — afirmou.
Na sequência, Textor comparou o estágio de desenvolvimento do Botafogo ao de outros clubes brasileiros que conseguiram manter uma base vencedora por mais tempo.
— Me desculpem, eu não tenho 20 anos de história no Palmeiras para ter desenvolvido um time, um coração de um time, que esteja completamente sólido. Então, nós tivemos uma parcela considerável de pessoas que estaria aqui por um tempo curto, porque foi assim que eu tive que recrutar os talentos — acrescentou.
Compra do Lyon
Em outro momento da entrevista, Textor reconheceu que cometeu um erro ao estruturar a aquisição do Lyon. Segundo ele, o problema não foi a compra do clube francês em si, mas a forma como buscou recursos para viabilizar a operação.
O empresário afirmou que acabou se associando a investidores que, em sua visão, não compartilhavam do mesmo entendimento sobre o projeto multiclubes.
— O que você espera que você faça com o tempo é construir compromissos mais longos. Desta vez, talvez um cara fique por dois ou três anos. Ou talvez você encontre o melhor jogador da América do Sul e ele fique com você por três, quatro anos. Bem, isso é o que o Palmeiras conseguiu fazer e é o que nós estamos construindo também. Então, o multiclubes (Eagle) não é a nossa queda. A ruptura do multiclube criou a luta. E o erro não foi comprar o Olympique Lyonnais, o erro foi ser tão ambicioso e ansioso de comprá-lo, que eu quase não me importava de onde conseguia o dinheiro. E eu trouxe pessoas para a nossa família e eles me disseram “Oh, o Brasil parece ótimo”, mas nenhum deles, além do JP Conte, nenhum deles entrou no avião, saiu e assistiu aos treinos, conheceu o treinador, assistiu a um jogo. Então, todos queremos falar sobre meus erros e todos debatem em mídias sociais todos os dias. Bem, ele assinou o contrato? Ele assinou? O meu erro não foi comprar o Olympique Lyonnais, foi ser tão ambicioso de comprá-lo, que eu peguei dinheiro de pessoas que não estavam realmente alinhadas com o que eu vi como o motor do nosso multiclube — concluiu.
As declarações acontecem em meio à disputa envolvendo o controle da SAF do Botafogo. Enquanto Textor segue alegando ser o proprietário de 90% das ações, a GDA Luma avança nas negociações para assumir o comando do futebol alvinegro por meio de um acordo com a Cork Gully LLP, administradora judicial da Eagle/Ares.
Quem é a GDA Luma?
A GDA Luma é uma gestora especializada em empresas em crise financeira — os chamados ativos “distressed”. Fundada por volta de 2021, administra cerca de US$ 406 milhões e opera com uma equipe enxuta, de aproximadamente 14 profissionais.
Como a GDA Luma atua
O modelo da GDA Luma segue um roteiro bem definido no mercado financeiro.
Primeiro, identifica empresas endividadas, mas com potencial de geração de caixa. Depois, adquire dívidas com desconto relevante, geralmente com garantia. A partir daí, passa a ter influência — ou controle — sobre a operação. É o chamado perfil de “white knight” — aquele investidor que entra em cenários críticos para tentar salvar o ativo.
A partir desse ponto, vem a fase mais sensível: o turnaround — a volta por cima em tradução livre. Corte de custos, ajuste de governança, reestruturação financeira, digitalização de processos. Tudo com um objetivo claro: recuperar valor e, no futuro, vender melhor.

Gabriel de Alba
A sigla GDA vem das iniciais Gabriel de Alba, fundador e sócio-gerente da empresa, executivo com mais de 25 anos de experiência em reestruturações e passagem por mercados como Estados Unidos, Europa e Canadá.
No setor, ganhou um apelido que diz muito: “pit bull dos negócios”. A reputação vem do estilo direto.
De Alba construiu carreira atuando em operações complexas, muitas delas em cenários de recuperação judicial ou quase falência. Tem no currículo casos relevantes, como a reestruturação do Cirque du Soleil e da Gateway Casinos.
Também acumula formação de peso: NYU Stern, Columbia e estudos avançados em Harvard. Hoje, preside conselhos e participa ativamente das decisões estratégicas dos ativos sob gestão.
Quais empresas a GDA já recuperou?
A GDA Luma tem experiência comprovada em recuperações de empresas distressed via compra de dívidas e turnarounds operacionais liderados por Gabriel de Alba.
Cirque du Soleil
Gabriel de Alba, presidente do conselho, liderou a reestruturação pós-falência durante a pandemia de COVID-19, recapitalizando a companhia canadense de circo e entretenimento que estava à beira do colapso, restaurando operações e estabilidade financeira.
Gateway Casinos & Entertainment
De Alba preside o conselho da operadora de cassinos canadense, recuperada de processo de insolvência via aquisição de dívidas distressed, com foco em otimização operacional e crescimento sustentável.
Frontera Energy
Recuperada quando conhecida como Pacific Rubiales, empresa de exploração de petróleo na Colômbia; De Alba como presidente do conselho implementou reestruturação de dívida e turnaround, estabilizando a companhia.
Pat McGrath Labs
Em 2026, a GDA Luma injetou até US$ 30 milhões via Chapter 11 (US$ 10 milhões DIP financing + US$ 20 milhões pós-emergência), assumindo controle acionário como credor sênior, permitindo recapitalização e continuidade criativa com Pat McGrath como CCO.
Relação com o Botafogo
Em 2026, o fundo — ao lado da Hutton Capital — já realizou um aporte/empréstimo de US$ 25 milhões na SAF. Existe ainda a possibilidade de mais US$ 25 milhões, via emissão de novas ações.
Esse segundo movimento, porém, ficou travado. John Textor, que conduzia a negociação, foi afastado do comando da SAF antes de conseguir aprovar o modelo com os demais sócios.
Mesmo assim, o interesse da GDA Luma permanece. E cresce.
Por que o fundo aparece como favorito
A própria SAF já admitiu à Justiça um estado “pré-falimentar”, com dificuldade para pagar salários e necessidade urgente de liquidez. É exatamente esse tipo de ambiente que a GDA Luma costuma atuar.
Tudo mais constante, a SAF se encaixa como o perfil ideal para o fundo.
Empresas com problema de caixa, estrutura desorganizada e potencial de recuperação.
Internamente, a leitura é de que a GDA Luma poderia entrar não apenas com dinheiro, mas com um plano de reestruturação completo — algo que o clube hoje não tem consolidado.
O que pode mudar no Botafogo
Caso avance, a entrada da GDA Luma tende a trazer um modelo mais rígido de gestão. Menos margem para erro. Mais controle financeiro, além de foco absoluto em geração de caixa.
Não significa, automaticamente, sucesso esportivo. Mas indica um caminho claro: organizar para depois crescer. Nesta quarta, inclusive, a SAF apresentou Carlos Martins como novo CFO, em claro movimento de reestruturação da casa.










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